segunda-feira, 25 de abril de 2011

SANGRIA DE AÇÚDES NO RN: ENTRE A EXPECTATIVA E A DESEPERANÇA


As nuvens escuras que cobriram os céus do sertão potiguar nas últimas semanas e que resultaram em boas chuvas por todo o Rio Grande do Norte ainda não apagaram as dúvidas de quem espera um espetáculo à parte, no período chuvoso: as sangrias dos açudes. Embora alguns reservatórios do estado já tenham ultrapassado sua cota máxima, em outros o nível da água ainda está longe de alcançar a altura dos sangradouros e restam dúvidas se isso ocorrerá. A equipe da TRIBUNA DO NORTE percorreu na última semana três dos principais reservatórios potiguares, a barragem Armando Ribeiro Gonçalves, em Assu; o açude Itans, em Caicó; e o Gargalheiras, em Acari; e ouviu relatos de expectativa em relação às sangrias, mas também de pessimismo, em um meio termo entre as cheias destruidoras de 2008 e 2009 e a seca que reinou em 2010. Funcionário de um hotel próximo ao Gargalheiras, Manuel Rosendo Neto avalia que a sangria já deveria ter ocorrido e, a essa altura do ano, não acredita mais nessa possibilidade. “Pelo que conheço, acho que em 2011 não vai sangrar mais, não”, resume. Nascido e criado em Acari e com 28 anos de idade, ele lembra que as últimas sangrias ocorreram logo no início de abril. “Geralmente é no início do mês, em 2008 foi no dia 1º e em 2009 no dia 11”, recorda. Na verdade, em 2008 a sangria se iniciou ainda em 31 de março e foi a primeira registrada desde 2004. Trabalhando há oito anos no hotel, ele revela que o fluxo de visitantes triplica quando há a sangria. No último final de semana, sete dos 11 quartos do local se encontravam ocupados. Se o açude estivesse despejando água sobre o sangradouro, a expectativa é que houvesse fila de espera para poder acompanhar o espetáculo do “véu de noiva” formado pela cascata descendo pela parede do reservatório. “Quando começou a chover o pessoal ainda ligou, para saber se estava para sangrar, mas quando souberam que não, nem vieram”, lamentou, lembrando que o Dourado, último açude antes de chegar ao Gargalheiras, não havia sangrado até uma semana atrás e que o próprio nível do reservatório de Acari ainda se encontrava a mais de 2,5 metros da capacidade total, no último domingo. O pescador e vendedor ambulante Milton Gregório da Silva também lamentou o baixo movimento nessa época do ano. Segundo ele, a presença de visitantes no Gargalheiras seria bem maior se já tivesse ocorrido a sangria, como ocorreu em 2009, ano no qual “Miltão”, como é mais conhecido, começou a trabalhar com um carrinho de bebidas e lanches à margem do reservatório. “Até agora pouca gente está vindo”, observa. O pescador destaca ainda que o volume de peixes em 2011 está abaixo do esperado. Apesar de o açude apresentar problemas visíveis de poluição da água, gerados devido à falta de saneamento em municípios próximos, “Miltão” não culpa a sujeira pela redução no número de peixes. “Tá difícil pra pesca, mas acho que não é isso (a poluição), não. Peixe é ano. Tem ano que é bom, tem ano que não é”, define. A informação da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (SEMARH), de meados da semana, dava conta que a barragem Armando Ribeiro Gonçalves estava com 87% de seu volume ocupado e ainda faltava 1,6 metro para a sangria, medida que pode parecer pequena, mas que ainda representa um volume imenso de água. O reservatório comporta 2,4 bilhões de m3, que faz dele o maior do Rio Grande do Norte. No entanto, em pleno domingo, 10h da manhã, nenhuma das mesas do restaurante ao lado da parede da barragem estava ocupada por clientes e poucas pessoas se dispunham a ir conhecer o sangradouro. No momento da passagem da equipe da TN, apenas a família de João Maria Bezerra se encontrava no local. O autônomo, que mora em Natal, reconheceu um “pingo de frustração” por não encontrar o reservatório sangrando. Nas cheias de 2008 e 2009, o reservatório chegou a registrar uma sangria com mais de 4 metros de lâmina d’água, em um espetáculo que encheu de beleza os olhos dos turistas e de temor os moradores das áreas próximas, vítimas das inundações que destruíram casas e plantações no Vale do Açu. Este ano, porém, o momento ainda é de expectativa. Dainara Cristina Barbosa, que trabalha no restaurante vizinho à barragem, diz acreditar que a sangria possa ocorrer nas próximas semanas. “Está chovendo desde o começo do mês e o movimento daqui só melhora mesmo quando sangra. Ouvi falar que falta pouco mais de um metro, então acho que vai sangrar ainda”, torce a jovem, sem esconder que a demora vem realmente frustrando muitos dos turistas. Em 2008, a sangria ocorreu ainda no final de março, no dia 27, enquanto em 2009 o volume d’água ultrapassou a capacidade do reservatório no dia 18 de abril. Morando ao lado do açude Itans há 21 anos, o trabalhador rural Lourival Francisco de França mantém o otimismo. “Ora, (o Itans) ainda vai sangrar, sim. Naqueles anos que choveu muito já tinha sangrado a essa altura do ano, mas teve ano de só sangrar no mês de maio, no final do mês, então ainda tem tempo de ter uma sangria”, avalia. Segundo ele, a sangria é a grande alegria dos caicoenses e dos turistas que vêm à cidade ver o espetáculo das águas. “Vige! A parede aí fica estreita para tanto povo, quando está sangrando”, resume. Até a medição do dia 18 de abril, o Itans alcançava pouco mais de metade de sua capacidade, exatos 51% dos 81 milhões de m3. Em 2008 a sangria ocorreu no dia 3 deste mês, enquanto em 2009 só veio no dia 29 de abril. A expectativa quanto às sangrias dos açudes é semelhante às dos agricultores com relação à safra deste ano. O subcoordenador de Agropecuária da Secretaria Estadual de Agricultura, Valdir Araújo de Souza, afirma que é cedo para garantir se haverá uma boa colheita, ou se as plantações do estado ainda podem ser afetadas pela irregularidade do inverno. “Acredito que dentro de uns 15 dias é que podemos ter um cenário mais claro, hoje é precipitado prever algo.” De qualquer forma, ele lembra que as sementes já foram distribuídas pela secretaria, nas regiões onde os bancos de sementes (mais de 900 em todo o território potiguar) não conseguiram produção suficiente para garantir o volume necessário este ano. Ele revela que em regiões como a do Alto Oeste, na “tromba do elefante”, as chuvas vêm garantindo otimismo para a safra de 2011, o que vem se refletindo em boas perspectivas para o restante do Rio Grande do Norte. “Vamos aguardar, mas a expectativa é boa”, conclui. A maioria dos dados da SEMARH ainda dizem respeito a informações coletadas em março. De acordo com a coordenadora de Gestão de Recursos Hídricos da secretaria, Joana D’arc Freire de Medeiros, o monitoramento ainda é feito apenas mensalmente, devido à limitação de pessoal e de estrutura da secretaria. O próximo levantamento geral deve ocorrer na primeira semana de maio. Ela afirma que já vem sendo trabalhada a compra de novos equipamentos, que permitirão o monitoramento diário dos reservatórios, mas enquanto isso não ocorre, a SEMARH trabalha com informações obtidas em campo pelas equipes, ou que chegam através de contatos no interior. “Na sexta-feira (18) o que soubemos é que na Armando Ribeiro estava com 87% da capacidade e ainda faltava 1,6 metro, apesar de quê ela toma muito volume de água de uma vez só”, destacou. Já o açude de Cruzeta estava, segundo as informações da SEMARH referentes a 18 de abril, próximo da sangria, que poderia acontecer a qualquer momento devido às últimas chuvas.
FONTE: TRIBUNA DO NORTE.

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